Este assunto é polêmico e daria para escrever linhas e mais linhas sobre ele. Os pacientes trazem muitas dúvidas sobre alimentação e enxaqueca. Quando chegam ao consultório, já tentaram vários tipos de dietas (e muitas das vezes sem sucesso).

Antes de falar sobre este assunto, vamos deixar claro um ponto importante: tratando-se de enxaqueca, sua causa é genética. A alimentação pode ser o gatilho de uma crise de enxaqueca. A CAUSA é diferente de GATILHO.

Intervenções alimentares podem ser mais baratas e produzem menos efeitos colaterais do que intervenção farmacológica. Mas é importante que seja uma orientação condizente com a realidade do paciente, já que os pacientes não conseguem manter uma dieta radical por longos períodos.

Uma primeira intervenção importante é o manejo do peso em pacientes enxaquecosos. A obesidade está associada com alta prevalência de enxaqueca e alto risco de transformação do tipo episódica para crônica. A mudança do estilo de vida, associando dieta equilibrada e atividade física podem colaborar muito no controle das crises. Quando indicada, até a cirurgia bariátrica pode ser uma opção.

É recomendado que os pacientes enxaquecosos evitem jejuns prolongados e pular refeições. Algumas dicas: – Evite longos períodos sem comida, – Consuma pequenas refeições ou lanches, ao longo do dia, contendo proteínas, – Evite alimentos ricos em açúcares refinados e consuma alimentos ricos em carboidratos complexos e fibras.

Beba bastante água! Dor de cabeça é um sintoma comum de desidratação, que pode levar a uma crise de enxaqueca em pacientes suscetíveis.Estudo realizado em 2020 evidenciou que o consumo elevado de água está associado a menor severidade, frequência e duração das crises.

Os níveis adequados de ingestão de água são variáveis: – Mulheres de 2 a 2,7 L total de água / dia – Homens de 2,5 a 3,7 L total de água / dia Na prática, monitorizar a cor da urina para que se mantenha clara é um excelente parâmetro

Reduza o seu consumo de café. A recomendação geral de cafeína para o adulto, por dia é de 400mg/dia (se for café, oriento ate 3 xícaras por dia). Para pacientes com migrânea, o seu consumo em excesso aumenta o risco de desenvolver migrânea crônica e ainda cefaleia rebote por analgésicos. A descontinuação abrupta de cafeína resulta em maiores taxas de melhora após 1 mês além de aumentar a eficácia do tratamento com triptanos (classe de medicamentos que inclue o sumax, naramig, maxalt…). Esta suspensão pode causar muita dor de cabeça, e refratária, pelo período de 7 a 14 dias

É interessante, então, sua suspensão com a supervisão e orientação do neurologista e nutricionista. Sabemos, também, que a descontinuação abrupta de cafeína pode aumentar a eficácia do tratamento com triptanos (sumatriptano, naratriptano…).

Não há evidências publicadas para demonstrar que abster-se de álcool melhora a enxaqueca, nem seu impacto na qualidade de vida. Entretanto, os pacientes com migrânea são mais susceptíveis à ressaca. Isso torna difícil distinguir entre dor de cabeça da ressaca (resposta tardia ao álcool) ou álcool como gatilho da enxaqueca (cefaleia imediata). Muitas pessoas com enxaqueca já evitam o álcool, mas é necessário maior avaliação para orientar os pacientes a identificarem sua própria resposta ao consumo de álcool. Considerando o impacto social da abstinência alcoólica, indivíduos com enxaqueca podem ser orientados a beber menos frequentemente, em quantidades moderadas e na ausência de outros gatilhos (quanto tomar, hidratar bastante e evitar associar com outros alimentos que são gatilhos, como amendoim, embutidos, entre outros).

Vamos falar dos gatilhos alimentares?

Estudos sobre gatilhos não são de alta qualidade. Durante a fase preditiva de um ataque de enxaqueca ocorre uma atividade hipotalâmica, sugerindo uma base biológica para os desejos alimentares observados durante esta fase que antecede a dor de cabeça. Se esses desejos levarem os indivíduos a ingerirem alimentos específicos (é muito comum a avidez por doce, por exemplo), essa conexão pode explicar por que os indivíduos associam alimentos específicos e consumidos com pouca frequência com ataque de enxaqueca. Os riscos de evitar gatilhos suspeitos de alimentos sem evidência incluem seguir uma dieta desnecessariamente restritiva (com consequências indesejadas à ingestão de nutrientes, consequências sociais por limitações extremas nas opções de alimentação, estresse e ansiedade para gerenciar a lista de “alimentos a evitar ”), bem como o custo da oportunidade de não gastar esse tempo fazendo tratamentos com evidências. A orientação para identificar os gatilhos alimentares é realizar um diário de dor. Caso identifique dores de cabeça sempre correlacionadas ao mesmo alimento, é importante evitá-lo.

  • Qual tipo de dieta devo seguir? Incentivamos o consumo de um padrão alimentar consistente com a nutrição geral: frutas, legumes, cereais integrais e grãos, proteínas magras (com ênfase em proteínas de peixes), vegetais. Devemos limitar o consumo de sal, açúcares adicionados e gorduras sólidas.
  • Existe relação entre glúten e enxaqueca? As populações com doença celíaca e sensibilidade ao glúten não-celíaco (NCGS) exibem maiores taxas de enxaqueca do que a população em geral. Pacientes com enxaqueca e doença celíaca frequentemente experimentam melhora significativa dos sintomas da enxaqueca após início da dieta sem glúten. No entanto, os resultados de ensaios de intervenção dietética sem glúten não demonstraram benefícios aos pacientes com sensibilidade ao glúten não-celíaco.

KHORSHA, Faezeh et al. Association of drinking water and migraine headache severity. Journal of Clinical Neuroscience, v. 77, p. 81-84, 2020. SLAVIN, Margaret et al. What is Needed for Evidence-Based Dietary Recommendations for Migraine: A Call to Action for Nutrition and Microbiome Research. Headache: The Journal of Head and Face Pain, v. 59, n. 9, p. 1566-1581, 2019.