Quando falamos da migrânea menstrual, descrevemos que ocorre devido a queda dos níveis de estrogênios, após um período prolongado de altos níveis. Na gravidez, não temos essa queda. O alto nível sustentado de estrogênio tem sido proposto como mecanismo de alívio da migrânea com a gravidez.

Seguindo este raciocínio, é comum ocorrer cefaleia pós parto. Devido a rápida queda dos níveis de progesterona e estrogênio.

Cerca de ½ a ¾ das mulheres migranosas experimentam uma melhora acentuada na enxaqueca durante a gravidez com uma redução significativa na frequência e intensidade de seus ataques (até uma melhora completa). Os ataques restantes mostram uma progressiva redução da intensidade e duração média da dor de acordo que a gravidez prossegue.

A enxaqueca pode piorar durante o primeiro trimestre de gravidez, quando os níveis de estrogênio estão em ascensão: isso é relatado em 8% dos casos.

A migrânea com aura é menos provável de melhorar do que a migrânea sem aura na gravidez, podendo estar relacionado ao aumento da reatividade vascular nos pacientes com migrânea e aura. Quase metade dos pacientes com enxaqueca com aura continuarão tendo ataques.

Pontos importante sobre a enxaqueca na gestante:

  • Mais comum migrânea com aura;
  • Migrânea sem aura prévia tem maior porcentagem de melhora na gravidez;
  • Melhora ou desaparecimento da migrânea em 55-90% dos casos;
  • Piora em 3-8% das pacientes.

Pontos importantes sobre a gravidez da mulher com enxaqueca:

  • Aumenta o risco de pré-eclâmpsia (associado com risco aumentado de placenta prévia, convulsões e acidente vascular encefálico);
  • Aumenta o risco de náuseas e vômitos intensos.

Em casos de dor de cabeça na gestante, o primeiro passo do médico é descartar cefaleia secundária.

Como é feito o tratamento da enxaqueca na gestante?

Damos preferência para as técnicas não medicamentosas:

  • Relaxamento;
  • Repouso;
  • Biofeedbcak;
  • Gelo no local;
  • Fisioterapia;
  • Hidroterapia;
  • Acupuntura;
  • Psicoterapia.

Algumas estratégias não farmacológicas:

  • Hidrate um mínimo de 2 litros de água por dia;
  • Evite pular refeições;
  • Reduza a ingestão de cafeína, mas evite a retirada súbita (dores de cabeça de abstinência de cafeína podem ocorrer em pacientes com consumo de mais que 200 mg / dia);
  • Higiene do sono: evite luzes fortes e o uso de telefone celular a noite; tenha uma quantidade adequada de sono (7-8 horas por noite);
  • Exercícios físicos regulares.

Devemos evitar medicamentos principalmente no período teratogênico clássico: 2º e 3º mês de gestação;

Principais preocupações e indicação de tratamento medicamentoso: Crises refratárias a medidas não farmacológicas e nos casos de náusea e vômitos, com risco de desidratação.

É muito importante uma consulta com neurologista para a orientação do tratamento. A gestante precisa desse suporte para saber o que fazer diante da crise de dor de cabeça e as medidas (farmacológicas ou não farmacológicas) para prevenir as crises.

Além das medidas não farmacológicas e dos medicamentos que podem ser usados para a enxaqueca, o bloqueio de nervos cranianos com lidocaína é considerado seguro na gestação. Ele apresenta ação periférica, com baixo efeito sistêmico. É um procedimento simples, realizado em consultório médico. Com uma agulha menor e mais fina que a utilizada para insulina, aplica-se superficialmente na pele, na topografia do nervo, o anestésico local. O alívio da dor costuma ser breve e com duração de até 3 semanas.

Seguindo uma linha mais natural, alguns nutracêuticos apresentam estudo de eficácia e segurança para serem utilizados na gestação. O magnésio e a coenzima Q10, por exemplo, são excelentes opções.

Outra opção é o dispositivo de neuromodulação chamado cefaly. Ele é um estimulador transcutâneo do nervo supra-orbital com aprovação para o tratamento profilático e agudo da enxaqueca. Comercializado no Brasil, quando bem indicado, pode ser uma excelente opção para a mulher grávida (e não grávida).

JARVIS, Sheba; DASSAN, Pooja; PIERCY, Catherine Nelson. Managing migraine in pregnancy. Bmj, v. 360, 2018. Livro Cefaleia na mulher – Dra Eliana Melhado