A migrânea (ou enxaqueca, como é mais conhecida) é a 2ª doença mais incapacitante do mundo. O que muitos não sabem é que a enxaqueca vai muito além da dor de cabeça, o que torna ela ainda mais limitante. Ela é descrita como uma dor de cabeça recorrente manifestando-se em episódios com duração de 4 a 72 horas. Características típicas desta dor são localização unilateral, pulsatilidade, intensidade moderada ou grave, agravamento por atividade física de rotina e associação com náuseas e/ou fotofobia e fonofobia. O quadro clínico da enxaqueca pode apresentar-se em 4 fases:

A primeira fase é a fase premonitória, ou prodrômica. Este é caracterizada por sintomas que podem ocorrer até 72 horas antes do início da dor. Sua frequência pode variar de 9% a 88%.

Os sintomas desta fase podem ser divididos em 3 grupos:

  • Fadiga e alterações cognitivas: Dificuldade de concentração e de memorização, fadiga, depressão e irritabilidade;
  • Alterações homeostáticas: desejo por doces, sede, aumento da frequência urinária, distúrbios do sono;
  • Sensibilidades sensoriais: Rigidez cervical, sensibilidade à luz, barulho e cheiros, além de náuseas.

É importante reforçar que um tratamento abortivo da crise de enxaqueca já pode ser estabelecido nesta fase: Algumas medicações estudadas são a domperidona (eficácia em 30% a 63% dos ataques) e o naratriptano (eficácia em 60% dos ataques)

A segunda fase é a AURA. Mas o que é a aura de enxaqueca?

São episódios recorrentes, com minutos de duração, unilaterais e completamente reversíveis, de sintomas visuais, sensitivos ou outros atribuíveis ao sistema nervoso central que, geralmente, se desenvolvem gradualmente (alastram gradualmente em 5 ou mais minutos, durando até 60 minutos) e, em regra, são seguidos por cefaleias e sintomas associados de enxaqueca.

Prevalência de enxaqueca com aura entre indivíduos com enxaqueca varia entre aproximadamente 20% e 40%.

Os sintomas de aura pode ser:

1. Visual

2. Sensitivo

3. Fala e/ou linguagem

4. Motor

5. Tronco cerebral

6. Retiniano

Imagem: Sociedade Brasileira de Cefaleia

Speciali, J G. Cefaleias. Cienc. Cult. vol.63 no.2 S

“A clínica do paciente com enxaqueca vai além da dor de cabeça”.

A terceira fase é a de dor de cabeça: a cefaleia é de forte intensidade, latejante/pulsátil, piorando com as atividades do dia a dia. A duração é de 4 a 72 horas. A dor é unilateral emdois terços das crises, geralmente mudando de lado de uma crise para outra.

A clínica do paciente com enxaqueca vai além da dor de cabeça. Ela é associada a sintomas não dolorosos, que podem ser tão incapacitantes quanto a própria dor, podendo inclusive durar mais tempo do que a fase de dor do ataque.

Piora da dor com esforços da rotina do paciente.

Sensibilidade a luz e barulho.

Náuseas e/ou vômitos: o paciente pode ter limitação até para a tomada de medicamentos para dor devido aos vômitos intensos e recorrentes.

Tontura e vertigem: A tontura pode aparecer antes, durante, depois da dor ou de maneira isolada. O paciente pode queixar intolerância ao movimento ou desequilíbrio e ter os mesmos gatilhos da enxaqueca. Estes sintomas são associados a outros sintomas “enxaquecosos” e quando são realizados exames pelo otorrino, os mesmos são normais. O tratamento destes casos são direcionados para a enxaqueca vestibular.

Sintomas intestinais: presente em 10% dos enxaquecosos, eles podem apresentar dor abdominal ou alteração intestinal no decorrer das crises. A distensão abdominal e a constipação tendem a ocorrer precedendo ou no início de uma enxaqueca. Nas fases posteriores ou finais da crise, pode acontecer um aumento na atividade peristáltica de todo o intestino, manifestando -se como cólica, diarréia ou refluxo gástrico.

Sintomas nasais: Estes sintomas confundem o paciente com sinusite e faz ele procurar o otorrinolaringologista: desencadeada por cheiros fortes; pode apresentar sintomas trigêmino-autonomicos, ou seja, antes ou durante a dor o paciente pode apresentar lacrimejanento, olhos inchados, coriza, sensação de ouvido cheio; Pontos dolorosos na face (alodínia).

A última fase é a prodrômica. Esta pode seguir a resolução da cefaleia, persistindo por até 48 horas. Os sintomas mais frequentes são: Exaustão, dificuldade de concentração e rigidez cervical.

James, Spencer L., et al. “Global, regional, and national incidence, prevalence, and years lived with disability for 354 diseases and injuries for 195 countries and territories, 1990–2017: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2017.” The Lancet 392.10159 (2018): 1789-1858.

Continuum Headache. AUGUST 2018. VOL. 24 NO. 4

The International Classification of Headache Disorders – 3rd edition (ICHD-3) – 2018