A cefaleia em salvas é um tipo de dor de cabeça muito intensa (talvez uma das mais fortes descritas). É considerada rara pela sua baixa frequência na população geral, e infelizmente a falta de conhecimento sobre ela pode gerar um atraso no diagnóstico.

A cefaleia em Salvas pertence a um grupo de dores de cabeça que chamamos de cefaleia trigêmino-autonômicas. Todas as cefaleias deste grupo apresentam as seguintes características em comum:

  • Cefaleia de curta duração
  • Sinais autonômicos do mesmo lado da dor (lacrimejamento e rinorreia, hiperemia conjuntival, obstrução nasal, miose e ptose)

Sobre a cefaleia em salvas, é mais frequente em homens (3 homens : 1 mulher).

Seu diagnóstico é clínico, ou seja, nenhum exame de imagem ou de sangue irá trazer o diagnóstico no seu laudo. Porém, é importante destacar que todo paciente com cefaleia e estes sintomas autonômicos precisam realizar exames para descartar causas secundárias (que podem mimetizar o quadro clínico e que pode ter um tratamento completamente diferente).

Sempre investigamos com ressonância de encéfalo com ênfase em hipofise e seio cavernoso além dos exames laboratoriais de screening da pituitária (principalmente função tireoideana, prolactina sérica, hormônio do crescimento/IGF-1). Casos refratários podem ainda complementar com realização de angio-ressonância de encéfalo e pescoço.

Quadro clínico: Dores de cabeça insuportáveis (intensidade da dor ascende muito rápido), sempre do mesmo lado, acompanhada de lacrimejamento, rinorreia, olhos vermelhos, obstrução nasal do mesmo lado da dor. Sua duração é de 15 a 180 minutos (cada crise), com frequência de 0 a 8 crises por dia. As crises costumam vir nos mesmos horário do dia (picos de período 2h-15h-21h).

Os ataques podem ser desencadeados por álcool, comidas contendo nitratos, nitroglicerina e por cheiros fortes como combustível, tintas e esmaltes.

É mais comum em homens, com idade entre 20-40 anos (80%), porém pode acontecer de 1 a 80 anos.

Sub diagnosticada: Os pacientes com Salvas levam em média 10 anos até receberem o diagnóstico correto (primeiro desafio para o diagnóstico direcionado); além disso, esses pacientes passam por quase 6 profissionais em média até chegarem ao diagnóstico.

O tratamento deve ser conduzido por um médico experiente no assunto (especialista em dor/ cefaleia), já que não é simples e deve ser individualizado e direcionado.

Ele deve ser conduzido em 3 linhas, simultaneamente:

  • Profilático (que tem como objetivo reduzir o número de crises assim como sua intensidade);
  • Agudo/ na crise (quando o paciente tem a crise de dor, ele precisa ter uma estratégia/mediamento para cortar a crise, reduzindo a incapacidade gerada pela doença)
  • Terapia de transição/ Ponte (Medicamentos utilizados de forma transitória com o objetivo de acelerar o início da melhora do quadro até que o tratamento profilático esteja funcionando satisfatoriamente).

Irei citar os tratamentos que podem ser utilizados, sem as doses utilizadas. A escolha da medicação e a dose deve ser feita pelo médico especialista.

Tratamento agudo:

No momento da crise o paciente pode fazer uso de medicamentos da classe dos triptanos (o mais estudado e eficaz é o sumatriptano). A forma injetável (sumax injetável) é mais potente e mais rápida que a forma nasal (sumax nasal), que por sua vez é mais potente e rápida que a via oral.

No pronto socorro ou para aqueles pacientes com necessidade frequente de triptanos ou para aqueles com contraindicação ao uso de triptanos, o oxigênio pode ser bastante eficaz.

Forma de receber o OXIGÊNIO: O2 a 100%, em máscara não re-inalável, 7-12 l/min, sentado, cabeça inclinada para frente, apoiando cotovelos sobre as coxas).

Tratamento preventivo:

O tratamento preventivo é aquele feito de forma contínua, com dor ou sem dor, e tem por objetivo reduzir o número e intensidade das crises. Medicações que podem ser utilizadas no tratamento (reforçando que a escolha da medicação e a dose deve ser individualizada e prescrita por médico especialista):

  • Verapamil (Tratamento de primeira linha)
  • Lítio (Tratamento de segunda linha). É mais usado na salvas crônica que na episódica.
  • Galcanezumab (3 canetas de 100mg / mês )
  • Melatonina
  • Clomifeno
  • Toxina botulínica

Outros que são provavelmente efetivos: topiramato, baclofeno, ácido valpróico.

Quando parar o tratamento profilático?

  • Após 4 semanas que a cefaleia cessou, evidenciado pela ausência de “sombras” ou respostas a gatilhos. Ou após a duração comum das crises.
  • Crises prévias podem ajudar na decisão de parar.

Terapia de transição/Ponte:

O tratamento preventivo pode levar algumas semanas para atingir o objetivo terapêutico de reduzir a frequência e intensidade das crises. Por isso, a terapia de ponte é importante. Com ela, o paciente já consegue notar melhora clínica nos primeiros dias de tratamento.

  • Bloqueio de nervo occipital maior com corticóide ipsilateral (ou somado ao bloqueio de nervos cranianos ipsilaterais)
  • Corticóide via oral
  • Triptanos de longa duração

Diante de um quadro clínico tão grave e incapacitante, procure avaliação especializada. Quando bem conduzida/ tratada, o paciente tem um alívio muito grande na sua dor nos períodos de salvas.

Referência: Managing cluster headache. Wei DY, Goadsby JP 2019.